Não, não estava sendo fácil. Ana cumprimentava cada cliente com cortesia e um sorriso no rosto, mas por dentro a angústia queimava como lava. Além de todas as preocupações das últimas semanas, a escola de sua filha Beatriz havia telefonado e pedido para que alguém fosse buscá-la. Aparentemente ela tinha se envolvido em uma briga com um coleguinha e acabara se machucando. A doceria estava completamente cheia de clientes e Pedro, seu ajudante, seu braço direito, não tinha ido trabalhar naquele dia – tinha pegado conjuntivite e seria obrigado a ficar em casa por uns dias. E para completar aquele dia interminável, era dia de fechar as contas do mês e pagar os funcionários. Ana não poderia abandonar a loja assim do nada.
Beatriz nunca havia brigado com ninguém. Sua filha de 6 anos era uma criança cheia de energia, inteligente, observadora, carinhosa. Por que ela havia feito uma coisa dessas tão de repente? E logo hoje? Ana estava prestes a ter um colapso nervoso quando se lembrou de dona Rute. Sua vizinha era uma senhora que beirava os 70 anos, professora recém-aposentada e sua melhor conselheira desde que ela havia se mudado para a casa ao lado, logo depois que Beatriz nasceu. Ligou para a vizinha e perguntou se ela poderia pegar Bia na escola e ficar com ela até que conseguisse fechar a doceria hoje. Dona Rute respondeu que faria isso com prazer, ela cuidaria do machucado e depois ela e Bia tomariam chá da tarde juntas, Ana não precisaria se preocupar.
“Quem dera isso fosse verdade...” – Ana pensou. Mas apenas agradeceu e voltou aos seus afazeres no trabalho.
Sua última cliente naquele dia foi uma moça loira, de cabelos encaracolados e óculos. Tinha por volta de 20 anos e segurava vários livros na mão. Ana saiu de trás do balcão e foi ajudá-la a levar o café e o bolo de laranja até uma mesinha perto da janela. A doceria não tinha garçons, normalmente os próprios clientes pegavam os doces no balcão e levavam para as mesas, mas Ana ficou com medo de que a menina não conseguisse carregar tudo sozinha com todos aqueles livros e se dispôs a ajudá-la.
A loja já havia fechado há mais de meia hora, mas a menina continuava lá, escrevendo alguma coisa em um papel, tão concentrada que nem percebeu que os funcionários já estavam limpando e guardando todas as coisas, se preparando para irem embora. Ana nunca cometeria a indelicadeza de pedir para um cliente se retirar, mas não conseguiu evitar fazer o trabalho burocrático naquele mesmo momento. Havia muitas contas para fechar, estoque para conferir, fornecedores para ligar, funcionários para pagar. Ana era uma doceira de mão cheia, sempre gostou de cozinhar. Contudo, não entendia absolutamente nada sobre administração, marketing ou direitos trabalhistas. Seu marido Roberto era quem sempre cuidava disso tudo. Todos diziam que eles eram um casal perfeito, um completava o outro, eram uma família como aquelas nos comerciais de margarina.
Mas um mês atrás, tudo terminou. Um dia de chuva, um motorista de caminhão com sono e a vida de Ana tinha mudado para sempre. Roberto se fora. Perder seu marido em um acidente, ter que cuidar sozinha de uma filha pequena e ainda aprender a administrar um pequeno negócio, aberto há pouco mais de 6 meses, não estava sendo fácil. Muitas vezes Ana tinha vontade de simplesmente abandonar tudo. Mas então pensava em sua filha e em todo o trabalho duro de seu marido para abrir a doceria e decidia que tinha que haver um jeito, ela não desistiria.
Tanto Ana quanto Roberto eram filhos únicos – o que significava que a pequena Beatriz nunca teria tios ou primos. Os pais de Ana já haviam falecido quando ela se casou e os pais de Roberto moravam em outro estado e só vinham visitá-los uma ou duas vezes por ano. Não havia parentes por perto com quem ela pudesse contar quando os problemas se agravavam.
Perdida em seus pensamentos, Ana não percebeu quando a garota loira foi embora. Terminou seus afazeres, dispensou as duas atendentes e seu ajudante de cozinha e disse a eles que ela mesma limparia a última mesa e lavaria o que tinha restado da louça. Já estava tarde e Ana não gostava de pedir para seus funcionários fazerem hora-extra. Ligou para Dona Rute para saber se Bia estava se comportando e se desculpou por ter que deixá-la lá por mais tempo do que havia previsto. A vizinha lhe garantiu que estava tudo bem, as duas estavam preparando almôndegas para o jantar e Bia estava se divertindo tanto, imitando a mãe como cozinheira, que nem se lembrava mais do machucado no joelho.
Ana se acalmou um pouco e foi recolher a louça da última mesa. Quando levantou o prato do bolo, um pequeno papel dobrado caiu no chão. Ela se abaixou para pegá-lo e inevitavelmente leu o título: Receita para a felicidade. Sua curiosidade foi mais forte e ela abriu o papel para ler o resto do texto. Ele dizia mais ou menos assim:
Para ser feliz, você vai precisar de:
- 1 xícara de bons amigos, daqueles que lhe dão bons conselhos, mesmo quando você não quer ouvi-los;
- 2 colheres de pessoas que lhe amem de verdade, incondicionalmente;
- 1 pitada de gentileza, para adoçar a vida;
- 1 dose de paciência, ela faz toda a diferença;
- Perseverança à vontade. Quanto mais, melhor.
Misture tudo e deixe seu sonho crescer. Se não der certo na primeira vez, tente de novo. Experimente colocar mais perseverança. Sempre funciona!
PS- Ana, obrigada por deixar meus dias mais doces, tanto com seus produtos quanto com seus sorrisos. O mundo seria um lugar muito incrível se mais pessoas gentis como você morassem nele. Se bem que aí ele seria o paraíso, não a Terra! Da sua cliente mais fiel para sempre!
PPS- Vai dar tudo certo, eu tenho certeza!
Ana estava estupefata! Ela se lembrava de ter visto a menina loira algumas vezes antes, mas nunca imaginou que ela, ou qualquer outro cliente, se importaria com a dona de uma pequena loja o suficiente para escrever um bilhete tão bonito. Como ela teria percebido que Ana precisava tanto dessas palavras hoje? Sem perceber, lágrimas começaram a correr por seu rosto. Há quanto tempo ela não chorava? 30 dias, exatamente 30 dias. Desde que tivera que contar à filha que o pai não voltaria mais, Ana tinha se comprometido a ser forte e a não deixar que ninguém a visse chorando. Ela tinha coisas mais importantes a fazer do que se deixar levar por sentimentalismo. Pelo menos era o que ela havia pensado antes. Porém agora, sentada no chão da doceria, sozinha, ela se permitiu colocar para fora tudo o que tinha aguentado até então. Ana chorou. Soluçou. Reviu tudo o que havia acontecido naquelas semanas de um jeito diferente. Então se acalmou. Respirou fundo, enxugou as lágrimas, se levantou e foi lavar o rosto. Quando se olhou no espelho, não foi a doceira ou a mulher de negócios que ela viu. O que ela enxergou foi uma mulher que merecia ser feliz, alguém que ainda merecia ser amada e reconhecida. Sorriu. Não o sorriso que se obrigava a dar aos clientes mesmo nos seus piores dias. Não, aquele era um sorriso de verdade. Pela primeira vez em muito tempo. Fez uma anotação mental para se lembrar de agradecer ao seu novo anjo da guarda, a menina loira com jeito de intelectual. Voltou à mesa, lavou a louça, apagou as luzes e fechou a loja. Hora de ir para casa.
Historinhas para ler em dias de tédio. Porque sou daquele tipo estranho de ser que só escreve quando está entediado! =P
sexta-feira, 26 de setembro de 2014
Posso ver você
- Hey, Carla, me desculpa por sábado, não deu para ir na sua festa, eu estava meio doente, sabe, fiquei com um pouco de febre e tal... Carla? Carla? Sério que você não vai falar comigo só porque eu não fui na sua festa? Tá, eu sei que você mudou o dia da festa por minha causa, mas eu não tenho culpa, né? Não tinha como eu adivinhar que ia ficar meio mal e... Carla??
- É triste, não é?
- Hã? Ah, oi, senhor Donizete. Não tinha visto o senhor aí. O que é triste?
- Ser invisível.
- Ah, o que? A Carla? Bom, acho que ela está brava comigo por eu não ter ido à festa, mas eu sei que é temporário, logo, logo ela vai estar falando comigo outra vez, o senhor vai ver.
- Eu espero que sim, meu rapaz, você não ia gostar de ser invisível como eu.
- Do que o senhor está falando? Eu estou vendo o senhor bem aí!
- Bem, olhe ao seu redor. Quantas pessoas estão neste colégio agora? Umas 300? 400? Sabe quantas delas sabem meu nome, rapaz? Posso contar nos dedos das mãos. Acho que nem o diretor sabe meu nome. Para ele, eu só sou o faxineiro. Se eu morrer e outro faxineiro vier no meu lugar, ele provavelmente nem vai notar.
- Mas os alunos não te cumprimentam todos os dias? E os professores?
- Não, você é um dos únicos. Talvez por isso você esteja me vendo agora. Para todas as outras pessoas, eu vou invisível.
- Desculpe, senhor Donizete, mas isso não faz o menor sentido para mim... por que o senhor acha que é invisível? O senhor.... morreu e virou fantasma? Ai, meus deuses, eu estou vendo gente morta??
- Pior, muito pior do que isso, rapaz. Há gente morta que continua viva e gente viva que ninguém vê. Está vendo aquela menina de cabeça baixa sentada ali naquele canto? Você a conhece?
- Ahm... acho que ela é da minha turma de artes, mas eu nunca falei com ela... O nome dela é... Jéssica? Joana? Alguma coisa com J... Janete! Acho que é Janete! O que tem ela?
- Há quanto tempo vocês estudam juntos? Por que você nunca falou com ela?
- Bom, eu não sei, talvez desde sempre, acho, eu realmente não me lembro. E eu nunca falei com ela porque... sei lá, não tem nenhum motivo, acho. Simplesmente não falei, ué.
- Você nunca falou com ela porque ela era invisível para você até agora. Você só a está vendo neste momento porque eu a mostrei para você.
- Estranho, ela parece estar triste, chorando...
- Sim, ela está triste porque também é invisível.
- Senhor Donizete, esse papo parece mesmo coisa de gente louca. Eu estou vendo a menina bem ali agora mesmo!
- Ontem foi o aniversário dela. Ela, o namorado e alguns amigos, os poucos que ela tem, se juntaram na lanchonete na frente da escola depois das aulas. Ela achou que eles estavam indo lá para comemorar o aniversário dela, mas ninguém lembrou da data. Nem o namorado! Ele e os amigos passaram a tarde toda mexendo no celular, falando com outras pessoas que não estavam ali. Ninguém notou a presença dela. Ela se tornou invisível.
- Puxa, isso deve ter sido triste. Mas, por que ela não ficou brava? Por que não brigou com o namorado e deu uma bronca nele? E como o senhor sabe disso tudo?
- Porque agora que ela está invisível, eu consigo enxergá-la. Eu sei exatamente como ela se sente, eu passo por isso todos os dias.
- Existem outros? Digo, outras pessoas invisíveis por aqui? (Estou me sentindo meio louco por perguntar isso, mas estou ficando realmente curioso...)
- Por que você mesmo não descobre? É só olhar ao seu redor. Procure pessoas que estão sozinhas, ou melhor, pessoas que ninguém vê. Porque, sabe, você pode estar cercado por uma multidão e ainda assim ser invisível.
- Tipo aquele cara ali? Aquele grandão jogando futebol com os outros garotos. Parece que ninguém passa a bola para ele!
- O que você sabe sobre ele?
- Quase nada, eu acho. Se não me engano ele era do time de basquete da escola alguns anos atrás, não era?
- Sim. E o time dele perdeu a final do campeonato escolar três anos atrás porque ele errou uma falta no último segundo do jogo. Todo mundo o culpou por isso. Ele próprio se culpou por isso. Desde então, ele tem desaparecido aos poucos. Ele chegou a tentar suicídio ano passado. Nem isso adiantou. O psicólogo receitou calmantes e mãe achou que era só frescura de adolescente. Ninguém parece realmente se importar.
- Senhor Donizete, o senhor acha que eu vou acabar ficando assim só porque eu não fui à festa da Carla? Quero dizer, era só uma festa boba, né? Ela não pode me ignorar para sempre por isso, eu acho!
- E quanto a todas as vezes em que você promete aos seus amigos que vai sair com eles e depois arranja alguma desculpa estúpida para não ir? Você acha que assim vai conseguir mais atenção deles, mas você está fazendo tudo errado!
- Do que o senhor está falando? Como o senhor sabe disso??
- Esta é uma das vantagens de ser invisível, provavelmente a única. Sobra-nos muito tempo para observar outras pessoas, para desejar ser como elas e ter a chance de ser visto. Você, meu rapaz, tem a sorte de ter muitos amigos. Não se torne invisível. Não adianta apenas dizer que está com saudades se você nunca tem tempo para estar com eles. Palavras, presentes, nada disso vale coisa alguma se você não der a eles o que tem de mais precioso: tempo. Você não se torna invisível porque ninguém te vê, mas porque ninguém te escuta, porque ninguém se preocupa. Se você quer ter a atenção de alguém, experimente ouvir ao invés de falar. Sentir ao invés de pensar. Ser ao invés de estar. Quanto mais do seu tempo você doar, mais vai receber em troca.
- Eu... acho que entendi. As pessoas só enxergam quem é igual a elas. Se eu tratá-las como alguém invisível, é assim que elas vão me tratar também. Senhor Donizete, quando é o seu aniversário?
- Hã? Meu aniversário? Nem me lembro quando foi a última vez que alguém me perguntou isso... bem, é depois de amanhã. Mas, por que a pergunta?
- Me aguarde, senhor Donizete! O senhor vai ver!
- Como assim, rap... hey, rapaz, volte aqui!
- Depois de amanhã, senhor Donizete! Me aguarde! Até mais!
(Dois dias depois...)
- SURPRESA!!!!
- Mas, o que??? O que é isso, Daniel?? O que são todas essas bexigas e esses lençóis e...QUATRO BOLOS?! Que festa é essa????
- Bom, Carla, eu queria me desculpar por não ter ido a sua festa. Eu estava mesmo um pouco gripado, mas eu confesso que acabei não indo mais por preguiça do que por causa da gripe. Então preparei essa festa à fantasia para me redimir. Você me perdoa?
- Hã, sim, claro... mas eu não entendi o motivo da decoração ser sobre fantasmas... ainda não estamos no Halloween! E você também não acha que exagerou na quantidade de bolos?
- Bem, essa é outra coisa que você vai ter que perdoar... a festa também é para mais três pessoas...
- Daniel, eu vi seu recado para te encontrar aqui na quadra, mas eu... o que é isso, cara??
- Oi, Pedro! É Pedro o seu nome, certo? O cara que fez nossa escola chegar ao vice-campeonato estudantil três anos atrás! Foi sem dúvida um grande feito! Eu sou seu fã, cara, você bem que poderia me dar umas dicas de como jogar basquete tão bem quanto você! Essa festa é para você também! Para a gente comemorar o aniversário do mais bem sucedido time de basquete que essa escola já teve! Parabéns, cara! Olha só, o bolo com o desenho da taça é o seu, ok?
- Ma.. o que? Hã...
- Bem, a gente já já corta os bolos e começa a festa, só estou esperando meus últimos dois convidados! E olha quem está aí! Olá, Janete! Obrigado por me ajudar com a ideia para a decoração da festa, tenho certeza de que você vai ser uma ótima designer muito em breve! O seu bolo é aquele ao lado do vaso de rosas, tá?
- MEU bolo? Essa festa é para mim também??
- Sim, claro, seu aniversário foi esses dias, não é? Eu falei com o seu namorado e combinei com ele para a gente comemorar o seu aniversário e o da Carla juntos, já que aparentemente nós dois estávamos em falta com vocês duas.
- Oi, amor! Me perdoa por ter esquecido seu aniversário? Eu sei que vou um péssimo namorado, mas eu prometo que nunca mais vou ficar pendurado no celular quando sair com você. E se eu fizer isso, pode tacar o celular na minha cabeça, eu vou merecer!
- Senhor Daniel! Possa saber que bagunça é essa na minha escola? Quem autorizou essa festa na quadra?
- Diretor Silva! Que bom que o senhor veio prestigiar nossa festa! Eu tentei falar com o senhor ontem, mas me disseram que o senhor não tinha tempo para conversar com alunos inconvenientes como eu. Aí eu pensei: bem, ser diretor deve ser mesmo muito estressante. Talvez uma festa ajude a melhorar os ânimos aqui na escola!
- E quem vai limpar essa bagunça toda depois, posso saber?
- Eu, oras! Com a ajuda de todos os alunos também, eu espero! Não seria justo deixar todo o lixo para o senhor Donizete limpar sozinho, certo?
- Senhor Donizete? Quem é esse??
- Então o senhor não sabe mesmo... bem, diretor Silva, eu te apresento o senhor Donizete, faxineiro da escola há mais de 20 anos! Hoje é aniversário dele e eu queria pedir a todos os presentes que cantem parabéns para ele! Senhor Donizete, o último bolo é para o senhor!
E apesar da cara de embasbacado do diretor Silva e da surpresa de todos os presentes, aquela foi a melhor festa que a escola já teve. No dia seguinte e em muitos e muitos dias depois, todos falaram sobre ela. E as pessoas passaram a se conhecer melhor. E aprenderam os nomes umas das outras. E passaram a se ver e a ouvir umas às outras - pessoalmente e não pelo celular! Nosso pequeno herói Daniel fez as pazes com sua amiga Carla, que futuramente seria sua namorada. Janete realmente jogou o celular na cabeça do namorado quando este se esqueceu da promessa um mês depois... ela terminou com ele e agora namora com Pedro. E o senhor Donizete? Bem, ele hoje recebe tantos “bom dia” que até o prefeito da cidade teria inveja! E nunca mais ninguém ali desapareceu misteriosamente, sumindo aos poucos até ficar invisível...
- É triste, não é?
- Hã? Ah, oi, senhor Donizete. Não tinha visto o senhor aí. O que é triste?
- Ser invisível.
- Ah, o que? A Carla? Bom, acho que ela está brava comigo por eu não ter ido à festa, mas eu sei que é temporário, logo, logo ela vai estar falando comigo outra vez, o senhor vai ver.
- Eu espero que sim, meu rapaz, você não ia gostar de ser invisível como eu.
- Do que o senhor está falando? Eu estou vendo o senhor bem aí!
- Bem, olhe ao seu redor. Quantas pessoas estão neste colégio agora? Umas 300? 400? Sabe quantas delas sabem meu nome, rapaz? Posso contar nos dedos das mãos. Acho que nem o diretor sabe meu nome. Para ele, eu só sou o faxineiro. Se eu morrer e outro faxineiro vier no meu lugar, ele provavelmente nem vai notar.
- Mas os alunos não te cumprimentam todos os dias? E os professores?
- Não, você é um dos únicos. Talvez por isso você esteja me vendo agora. Para todas as outras pessoas, eu vou invisível.
- Desculpe, senhor Donizete, mas isso não faz o menor sentido para mim... por que o senhor acha que é invisível? O senhor.... morreu e virou fantasma? Ai, meus deuses, eu estou vendo gente morta??
- Pior, muito pior do que isso, rapaz. Há gente morta que continua viva e gente viva que ninguém vê. Está vendo aquela menina de cabeça baixa sentada ali naquele canto? Você a conhece?
- Ahm... acho que ela é da minha turma de artes, mas eu nunca falei com ela... O nome dela é... Jéssica? Joana? Alguma coisa com J... Janete! Acho que é Janete! O que tem ela?
- Há quanto tempo vocês estudam juntos? Por que você nunca falou com ela?
- Bom, eu não sei, talvez desde sempre, acho, eu realmente não me lembro. E eu nunca falei com ela porque... sei lá, não tem nenhum motivo, acho. Simplesmente não falei, ué.
- Você nunca falou com ela porque ela era invisível para você até agora. Você só a está vendo neste momento porque eu a mostrei para você.
- Estranho, ela parece estar triste, chorando...
- Sim, ela está triste porque também é invisível.
- Senhor Donizete, esse papo parece mesmo coisa de gente louca. Eu estou vendo a menina bem ali agora mesmo!
- Ontem foi o aniversário dela. Ela, o namorado e alguns amigos, os poucos que ela tem, se juntaram na lanchonete na frente da escola depois das aulas. Ela achou que eles estavam indo lá para comemorar o aniversário dela, mas ninguém lembrou da data. Nem o namorado! Ele e os amigos passaram a tarde toda mexendo no celular, falando com outras pessoas que não estavam ali. Ninguém notou a presença dela. Ela se tornou invisível.
- Puxa, isso deve ter sido triste. Mas, por que ela não ficou brava? Por que não brigou com o namorado e deu uma bronca nele? E como o senhor sabe disso tudo?
- Porque agora que ela está invisível, eu consigo enxergá-la. Eu sei exatamente como ela se sente, eu passo por isso todos os dias.
- Existem outros? Digo, outras pessoas invisíveis por aqui? (Estou me sentindo meio louco por perguntar isso, mas estou ficando realmente curioso...)
- Por que você mesmo não descobre? É só olhar ao seu redor. Procure pessoas que estão sozinhas, ou melhor, pessoas que ninguém vê. Porque, sabe, você pode estar cercado por uma multidão e ainda assim ser invisível.
- Tipo aquele cara ali? Aquele grandão jogando futebol com os outros garotos. Parece que ninguém passa a bola para ele!
- O que você sabe sobre ele?
- Quase nada, eu acho. Se não me engano ele era do time de basquete da escola alguns anos atrás, não era?
- Sim. E o time dele perdeu a final do campeonato escolar três anos atrás porque ele errou uma falta no último segundo do jogo. Todo mundo o culpou por isso. Ele próprio se culpou por isso. Desde então, ele tem desaparecido aos poucos. Ele chegou a tentar suicídio ano passado. Nem isso adiantou. O psicólogo receitou calmantes e mãe achou que era só frescura de adolescente. Ninguém parece realmente se importar.
- Senhor Donizete, o senhor acha que eu vou acabar ficando assim só porque eu não fui à festa da Carla? Quero dizer, era só uma festa boba, né? Ela não pode me ignorar para sempre por isso, eu acho!
- E quanto a todas as vezes em que você promete aos seus amigos que vai sair com eles e depois arranja alguma desculpa estúpida para não ir? Você acha que assim vai conseguir mais atenção deles, mas você está fazendo tudo errado!
- Do que o senhor está falando? Como o senhor sabe disso??
- Esta é uma das vantagens de ser invisível, provavelmente a única. Sobra-nos muito tempo para observar outras pessoas, para desejar ser como elas e ter a chance de ser visto. Você, meu rapaz, tem a sorte de ter muitos amigos. Não se torne invisível. Não adianta apenas dizer que está com saudades se você nunca tem tempo para estar com eles. Palavras, presentes, nada disso vale coisa alguma se você não der a eles o que tem de mais precioso: tempo. Você não se torna invisível porque ninguém te vê, mas porque ninguém te escuta, porque ninguém se preocupa. Se você quer ter a atenção de alguém, experimente ouvir ao invés de falar. Sentir ao invés de pensar. Ser ao invés de estar. Quanto mais do seu tempo você doar, mais vai receber em troca.
- Eu... acho que entendi. As pessoas só enxergam quem é igual a elas. Se eu tratá-las como alguém invisível, é assim que elas vão me tratar também. Senhor Donizete, quando é o seu aniversário?
- Hã? Meu aniversário? Nem me lembro quando foi a última vez que alguém me perguntou isso... bem, é depois de amanhã. Mas, por que a pergunta?
- Me aguarde, senhor Donizete! O senhor vai ver!
- Como assim, rap... hey, rapaz, volte aqui!
- Depois de amanhã, senhor Donizete! Me aguarde! Até mais!
(Dois dias depois...)
- SURPRESA!!!!
- Mas, o que??? O que é isso, Daniel?? O que são todas essas bexigas e esses lençóis e...QUATRO BOLOS?! Que festa é essa????
- Bom, Carla, eu queria me desculpar por não ter ido a sua festa. Eu estava mesmo um pouco gripado, mas eu confesso que acabei não indo mais por preguiça do que por causa da gripe. Então preparei essa festa à fantasia para me redimir. Você me perdoa?
- Hã, sim, claro... mas eu não entendi o motivo da decoração ser sobre fantasmas... ainda não estamos no Halloween! E você também não acha que exagerou na quantidade de bolos?
- Bem, essa é outra coisa que você vai ter que perdoar... a festa também é para mais três pessoas...
- Daniel, eu vi seu recado para te encontrar aqui na quadra, mas eu... o que é isso, cara??
- Oi, Pedro! É Pedro o seu nome, certo? O cara que fez nossa escola chegar ao vice-campeonato estudantil três anos atrás! Foi sem dúvida um grande feito! Eu sou seu fã, cara, você bem que poderia me dar umas dicas de como jogar basquete tão bem quanto você! Essa festa é para você também! Para a gente comemorar o aniversário do mais bem sucedido time de basquete que essa escola já teve! Parabéns, cara! Olha só, o bolo com o desenho da taça é o seu, ok?
- Ma.. o que? Hã...
- Bem, a gente já já corta os bolos e começa a festa, só estou esperando meus últimos dois convidados! E olha quem está aí! Olá, Janete! Obrigado por me ajudar com a ideia para a decoração da festa, tenho certeza de que você vai ser uma ótima designer muito em breve! O seu bolo é aquele ao lado do vaso de rosas, tá?
- MEU bolo? Essa festa é para mim também??
- Sim, claro, seu aniversário foi esses dias, não é? Eu falei com o seu namorado e combinei com ele para a gente comemorar o seu aniversário e o da Carla juntos, já que aparentemente nós dois estávamos em falta com vocês duas.
- Oi, amor! Me perdoa por ter esquecido seu aniversário? Eu sei que vou um péssimo namorado, mas eu prometo que nunca mais vou ficar pendurado no celular quando sair com você. E se eu fizer isso, pode tacar o celular na minha cabeça, eu vou merecer!
- Senhor Daniel! Possa saber que bagunça é essa na minha escola? Quem autorizou essa festa na quadra?
- Diretor Silva! Que bom que o senhor veio prestigiar nossa festa! Eu tentei falar com o senhor ontem, mas me disseram que o senhor não tinha tempo para conversar com alunos inconvenientes como eu. Aí eu pensei: bem, ser diretor deve ser mesmo muito estressante. Talvez uma festa ajude a melhorar os ânimos aqui na escola!
- E quem vai limpar essa bagunça toda depois, posso saber?
- Eu, oras! Com a ajuda de todos os alunos também, eu espero! Não seria justo deixar todo o lixo para o senhor Donizete limpar sozinho, certo?
- Senhor Donizete? Quem é esse??
- Então o senhor não sabe mesmo... bem, diretor Silva, eu te apresento o senhor Donizete, faxineiro da escola há mais de 20 anos! Hoje é aniversário dele e eu queria pedir a todos os presentes que cantem parabéns para ele! Senhor Donizete, o último bolo é para o senhor!
E apesar da cara de embasbacado do diretor Silva e da surpresa de todos os presentes, aquela foi a melhor festa que a escola já teve. No dia seguinte e em muitos e muitos dias depois, todos falaram sobre ela. E as pessoas passaram a se conhecer melhor. E aprenderam os nomes umas das outras. E passaram a se ver e a ouvir umas às outras - pessoalmente e não pelo celular! Nosso pequeno herói Daniel fez as pazes com sua amiga Carla, que futuramente seria sua namorada. Janete realmente jogou o celular na cabeça do namorado quando este se esqueceu da promessa um mês depois... ela terminou com ele e agora namora com Pedro. E o senhor Donizete? Bem, ele hoje recebe tantos “bom dia” que até o prefeito da cidade teria inveja! E nunca mais ninguém ali desapareceu misteriosamente, sumindo aos poucos até ficar invisível...
Lilitown
O dia amanhecia preguiçosamente em Lilitown. Pouco a pouco, as casinhas do pequeno vilarejo perdido nas altas montanhas ganhavam cores e um aspecto de lugar feliz. Tudo parecia tranqüilo naquele reino esquecido pelos deuses e longe de qualquer lugar que se pudesse chamar de civilização.
Mas, olhando mais atentamente, podia-se perceber que Lilitown não era um lugar comum. A moça abrindo a janela para o sol entrar não tinha expressão nenhuma. O padeiro sovando a massa não tinha uma gota sequer de suor no rosto. A senhora idosa atravessando a rua não possuía nenhuma ruga em sua face. As crianças brincando no jardim não demonstravam nem alegria, nem tristeza. Todos em Lilitown usavam máscaras.
Não se sabe ao certo como essa tradição começou. Dizem as lendas que um dia, há muitos e muitos anos, Lilitown foi a morada dos deuses. Quando os primeiro humanos pisaram no solo sagrado, os deuses, enfurecidos, se mudaram para longe e jogaram sobre os habitantes do local uma maldição que faria com que seus rostos se tornassem tão completamente desfigurados que qualquer pessoa enlouqueceria ao ver a própria imagem. Desde aquela época remota então toda pessoa nascida no vilarejo recebia uma máscara ao nascer e assim vivia por todos os seus dias.
Jony Doe tinha nascido em Lilitown 14 anos atrás. Nunca tinha sequer parado para indagar o motivo pelo qual todas as pessoas que conhecia escondiam-se atrás de uma máscara. Isso era, para ele, tão natural quanto respirar.
Um dia, andando pelo bosque em torno do vilarejo, começou a discutir calorosamente com sua amiga Maisa sobre o sentido da vida. Isso era uma coisa realmente rara em Lilitown! As pessoas do lugar raramente se entregavam a conversas tão prolongadas e profundas. Todas as palavras ditas naquele local esquecido pareciam mais sussurradas do que realmente ditas com alguma convicção.
Mas adolescentes sempre se exaltam ao discutir algo que lhes interessa! E no calor da discussão, o improvável aconteceu: ao gesticular com mais veemência para mostrar a Jony sua opinião, a máscara de Maisa caiu! Por uma fração de segundo, Jony pôde ver o verdadeiro rosto de sua melhor amiga. Ela, envergonhada, correu para longe, com medo do que poderia acontecer se alguém soubesse o que havia se passado. Ele, no entanto, permaneceu estático. Estava chocado demais para se mover. Não porque o rosto de Maisa fosse tão deformado a ponto de imobilizá-lo, mas porque, ao contrário do que imaginou por toda a sua vida, ele era a coisa mais bela que já tinha visto.
Jony sentou-se na beira do lago e pensamentos diversos cruzaram sua mente. Aquela minúscula fração de segundo tinha tido o poder de mudar toda a sua vida! Ele se questionou sobre tudo que aprendera até aquele momento. E então fez algo que nunca antes tinha ousado fazer: tirou sua própria máscara!
Ao se olhar no reflexo do lago, ele viu um homem extremamente belo. Tinha cabelos claros como sol, pele branca como a neve e olhos brilhantes como a água. Estranhou olhar a si mesmo sem a máscara. Então chegou perto demais para poder olhar melhor e seu movimento provocou ondulações de distorceram a imagem. Assustou-se e jogou-se para trás.
Mas a ousadia dos jovens ainda estava nele e ele se aproximou mais uma vez quando a superfície do lago se acalmou. E então, pela primeira vez em toda sua vida, sentiu-se feliz de verdade. Saiu correndo por todo o vilarejo tentando dizer às pessoas que a maldição havia acabado e que ninguém mais precisava usar máscaras. Correu em direção à casa de Maisa porque queria compartilhar com ela a descoberta maravilhosa. Mas ao chegar lá uma grande tragédia havia acontecido! Sua melhor amiga estava deitada sobre uma poça de sangue. Não havia agüentado a pressão de ter deixado sua máscara cair na frente de outra pessoa. Não se deu sequer o direito de saber o quanto era bela.
E Jony, perdido em tantos pensamentos sem sentido, se viu acusado de demônio por todos do vilarejo. Algumas pessoas sentiram-se tentadas a também tirar suas máscaras, mas não tiveram coragem. Outras estavam chocadas demais em ver alguém sem sua máscara e não sabiam sequer o que deveriam pensar. Mas a grande maioria das pessoas achava que Jony era o culpado pela morte de Maisa. Pensavam que ela havia morrido porque ele havia novamente desafiado os deuses ao quebrar com a tradição. Ninguém, nem mesmo sua família e amigos, quiseram ouví-lo dizer que não havia mais nenhuma maldição e que todos poderiam ser quem eles realmente deveriam ser.
E foi assim que Jony tornou-se a primeira pessoa a sair de Lilitown desde que o vilarejo havia sido fundado. Foi expulso do único lugar que poderia chamar de lar e passou a ser um andarilho. Conheceu o mundo todo e descobriu que máscaras eram mais comuns do que poderia imaginar. Mas também descobriu outras pessoas que, como ele, preferiam mostrar ao mundo quem elas realmente eram. E assim viveu intensamente, com o rosto erguido e se orgulhando de cada ruga que o destino lhe deu.
E hoje, amigos, estamos aqui reunidos para dizer adeus a um homem que foi tudo o que sempre quis ser, um homem que acreditou na beleza da verdade acima de tudo. Porque, dizia ele, talvez ver a dor daqueles que amamos seja uma dura missão, mas ver o sorriso verdadeiro em seus rostos é também a suprema felicidade. Descanse em paz.
Jony Doe
*1/1/1901 +8/7/1975
“Aqui jaz um homem que viveu intensamente, sem medo e sem máscaras, apenas com a sua coragem e a sua verdade.”
Mas, olhando mais atentamente, podia-se perceber que Lilitown não era um lugar comum. A moça abrindo a janela para o sol entrar não tinha expressão nenhuma. O padeiro sovando a massa não tinha uma gota sequer de suor no rosto. A senhora idosa atravessando a rua não possuía nenhuma ruga em sua face. As crianças brincando no jardim não demonstravam nem alegria, nem tristeza. Todos em Lilitown usavam máscaras.
Não se sabe ao certo como essa tradição começou. Dizem as lendas que um dia, há muitos e muitos anos, Lilitown foi a morada dos deuses. Quando os primeiro humanos pisaram no solo sagrado, os deuses, enfurecidos, se mudaram para longe e jogaram sobre os habitantes do local uma maldição que faria com que seus rostos se tornassem tão completamente desfigurados que qualquer pessoa enlouqueceria ao ver a própria imagem. Desde aquela época remota então toda pessoa nascida no vilarejo recebia uma máscara ao nascer e assim vivia por todos os seus dias.
Jony Doe tinha nascido em Lilitown 14 anos atrás. Nunca tinha sequer parado para indagar o motivo pelo qual todas as pessoas que conhecia escondiam-se atrás de uma máscara. Isso era, para ele, tão natural quanto respirar.
Um dia, andando pelo bosque em torno do vilarejo, começou a discutir calorosamente com sua amiga Maisa sobre o sentido da vida. Isso era uma coisa realmente rara em Lilitown! As pessoas do lugar raramente se entregavam a conversas tão prolongadas e profundas. Todas as palavras ditas naquele local esquecido pareciam mais sussurradas do que realmente ditas com alguma convicção.
Mas adolescentes sempre se exaltam ao discutir algo que lhes interessa! E no calor da discussão, o improvável aconteceu: ao gesticular com mais veemência para mostrar a Jony sua opinião, a máscara de Maisa caiu! Por uma fração de segundo, Jony pôde ver o verdadeiro rosto de sua melhor amiga. Ela, envergonhada, correu para longe, com medo do que poderia acontecer se alguém soubesse o que havia se passado. Ele, no entanto, permaneceu estático. Estava chocado demais para se mover. Não porque o rosto de Maisa fosse tão deformado a ponto de imobilizá-lo, mas porque, ao contrário do que imaginou por toda a sua vida, ele era a coisa mais bela que já tinha visto.
Jony sentou-se na beira do lago e pensamentos diversos cruzaram sua mente. Aquela minúscula fração de segundo tinha tido o poder de mudar toda a sua vida! Ele se questionou sobre tudo que aprendera até aquele momento. E então fez algo que nunca antes tinha ousado fazer: tirou sua própria máscara!
Ao se olhar no reflexo do lago, ele viu um homem extremamente belo. Tinha cabelos claros como sol, pele branca como a neve e olhos brilhantes como a água. Estranhou olhar a si mesmo sem a máscara. Então chegou perto demais para poder olhar melhor e seu movimento provocou ondulações de distorceram a imagem. Assustou-se e jogou-se para trás.
Mas a ousadia dos jovens ainda estava nele e ele se aproximou mais uma vez quando a superfície do lago se acalmou. E então, pela primeira vez em toda sua vida, sentiu-se feliz de verdade. Saiu correndo por todo o vilarejo tentando dizer às pessoas que a maldição havia acabado e que ninguém mais precisava usar máscaras. Correu em direção à casa de Maisa porque queria compartilhar com ela a descoberta maravilhosa. Mas ao chegar lá uma grande tragédia havia acontecido! Sua melhor amiga estava deitada sobre uma poça de sangue. Não havia agüentado a pressão de ter deixado sua máscara cair na frente de outra pessoa. Não se deu sequer o direito de saber o quanto era bela.
E Jony, perdido em tantos pensamentos sem sentido, se viu acusado de demônio por todos do vilarejo. Algumas pessoas sentiram-se tentadas a também tirar suas máscaras, mas não tiveram coragem. Outras estavam chocadas demais em ver alguém sem sua máscara e não sabiam sequer o que deveriam pensar. Mas a grande maioria das pessoas achava que Jony era o culpado pela morte de Maisa. Pensavam que ela havia morrido porque ele havia novamente desafiado os deuses ao quebrar com a tradição. Ninguém, nem mesmo sua família e amigos, quiseram ouví-lo dizer que não havia mais nenhuma maldição e que todos poderiam ser quem eles realmente deveriam ser.
E foi assim que Jony tornou-se a primeira pessoa a sair de Lilitown desde que o vilarejo havia sido fundado. Foi expulso do único lugar que poderia chamar de lar e passou a ser um andarilho. Conheceu o mundo todo e descobriu que máscaras eram mais comuns do que poderia imaginar. Mas também descobriu outras pessoas que, como ele, preferiam mostrar ao mundo quem elas realmente eram. E assim viveu intensamente, com o rosto erguido e se orgulhando de cada ruga que o destino lhe deu.
E hoje, amigos, estamos aqui reunidos para dizer adeus a um homem que foi tudo o que sempre quis ser, um homem que acreditou na beleza da verdade acima de tudo. Porque, dizia ele, talvez ver a dor daqueles que amamos seja uma dura missão, mas ver o sorriso verdadeiro em seus rostos é também a suprema felicidade. Descanse em paz.
*1/1/1901 +8/7/1975
“Aqui jaz um homem que viveu intensamente, sem medo e sem máscaras, apenas com a sua coragem e a sua verdade.”
Senhores da guerra
Calor, barulho de explosões e cheiro de pólvora e fumaça por todos os lados. Mas ali dentro da cabine do caça, John Doe não ouve nada além de seus próprios pensamentos. A ordem chegou duas horas atrás e John foi o primeiro escolhido para a missão.
Ele se recorda de sua família numa terra distante, em um tempo que parece longe demais. Pensa em seus irmãos mais novos, suspira por sua amada e sente um enorme vazio em seu peito quando se lembra dos pais. Essa é sua última missão. Ele a aceitou para que seus irmãos nunca precisem conhecer os horrores da guerra.
Se tudo der certo, John será um herói para toda a sua nação. Mas ele se pergunta como ele será visto pelo o outro lado, por aqueles que morrerão essa tarde, para as famílias que terão que conviver com as sequelas que ninguém sequer imagina quais serão. Um tipo de bomba nunca antes usado. Não é a própria morte que o assusta. Ele quer com todas as forças que a guerra termine, mas se pergunta se o preço a pagar pela paz não é alto demais.
É dado o sinal para que ele se dirija à pista de decolagem, o avião já foi abastecido e carregado com o novo armamento. Os senhores da guerra já lançaram seus dados. Dizimar uma cidade inteira para acabar com o confronto é melhor do que deixar que ele se perpetue. Eles não podem perder. John pode. Milhares de pessoas que irão morrer pela bomba hoje e por muitos anos depois podem. Eu posso.
John posiciona o avião na cabeceira da pista. Ele olha para frente, com o semblante sério. Parece totalmente concentrado, mas eu sei perfeitamente o que ele sente. São suas últimas horas de vida e todos os seus medos e conflitos apertam seu peito e confundem sua cabeça. Em pouco tempo ele chegará a Hiroshima. Daqui a três dias, eu estarei naquele mesmo lugar, me dirigindo a Nagasaki. Três longos dias para pensar em qual é o valor da vida e qual será o meu legado para o mundo. Espero apenas que algum dia eu seja verdadeiramente perdoado.
Ele se recorda de sua família numa terra distante, em um tempo que parece longe demais. Pensa em seus irmãos mais novos, suspira por sua amada e sente um enorme vazio em seu peito quando se lembra dos pais. Essa é sua última missão. Ele a aceitou para que seus irmãos nunca precisem conhecer os horrores da guerra.
Se tudo der certo, John será um herói para toda a sua nação. Mas ele se pergunta como ele será visto pelo o outro lado, por aqueles que morrerão essa tarde, para as famílias que terão que conviver com as sequelas que ninguém sequer imagina quais serão. Um tipo de bomba nunca antes usado. Não é a própria morte que o assusta. Ele quer com todas as forças que a guerra termine, mas se pergunta se o preço a pagar pela paz não é alto demais.
É dado o sinal para que ele se dirija à pista de decolagem, o avião já foi abastecido e carregado com o novo armamento. Os senhores da guerra já lançaram seus dados. Dizimar uma cidade inteira para acabar com o confronto é melhor do que deixar que ele se perpetue. Eles não podem perder. John pode. Milhares de pessoas que irão morrer pela bomba hoje e por muitos anos depois podem. Eu posso.
John posiciona o avião na cabeceira da pista. Ele olha para frente, com o semblante sério. Parece totalmente concentrado, mas eu sei perfeitamente o que ele sente. São suas últimas horas de vida e todos os seus medos e conflitos apertam seu peito e confundem sua cabeça. Em pouco tempo ele chegará a Hiroshima. Daqui a três dias, eu estarei naquele mesmo lugar, me dirigindo a Nagasaki. Três longos dias para pensar em qual é o valor da vida e qual será o meu legado para o mundo. Espero apenas que algum dia eu seja verdadeiramente perdoado.
Assinar:
Postagens (Atom)